Penas Negras [sobre Cisne Negro]

 

Cisne Negro (Black Swan) (2010) Direção de Darren Aronofsky

Olá!, e bem-vind@s!

Para o meu primeiro post, queria alguma coisa especial; então, pensei: por que não Cisne Negro?

Bom… Percebi que tinha que escrever alguma coisa sobre Cisne Negro assim que assisti ao filme. Eu sei: algumas pessoas amaram o filme, outras odiaram. Só pra deixar claro: eu não pretendo convencer ninguém de que o filme é bom ou que tem que ser assistido. O que escrevo aqui é minha opinião, e talvez quem leia possa encontrar algumas coisas com que se relacione seu ponto de vista, talvez não.

Créditos às minhas idéias também se devem às discussões que tive com alguns amigos, em especial com Kauan Negri, que é meu colega em um projeto de pesquisa na universidade, e com nossa Professora Rita Schmidt.

É provável que algumas coisas que direi estejam mais claras para quem já assistiu o filme, o que não significa que quem não assistiu não vai entender. Claro que aqui e ali há alguns spoilers; porém, não é minha intenção fazer uma resenha sobre o filme ou oferecer um resumo do mesmo. Então:

Cisne Negro + motifs góticos

Cisne Negro está imerso em uma aura gótica que dá ao filme tons incrivelmente dark. Enredo, cenário, personagens e temática trabalham juntos para nos levarem para dentro do mundo de Nina. Eu pretendo apontar, então, algum aspecto que chamaram minha atenção tentando relacioná-los com a estética gótica.

1.1 Narrador

Na literatura, o narrador é a pessoa (personagem) que conta a história. O narrador conduz o leitor através dos eventos, mostrando-lhe apenas o que ele/ela considera importante. No cinema, o narrador é a câmera, pois é apenas através dela que somos capazes de acompanhar o que se passa na história. O que não está sob o foco, contudo, não deixa de ser importante: bem como nos textos escritos, o cinema também deixa algumas coisas implícitas.

No caso de Cisne Negro, é interessante notar que Nina está presente em todos os momentos. Há cenas em que a câmera se move como Nina (quando ela está andando ou dançando, por exemplo, os movimentos da câmera nos fazem acreditar que estamos andando/dançando com ela). Isso me leva a crer que a realidade que vemos na tela é a realidade de Nina, não apenas porque ela é a personagem principal, mas porque somos conduzidos para dentro de sua personagem, e assim somos capazes de participar do que acontece com ela. As tênues linhas traçadas entre a realidade e os delírios de Nina também podem ser considerados um fator indicativo da influência dessa personagem sobre o modo como a história é contada, já que percebemos o que era real ou não apenas quando Nina o faz (ou talvez, quando se é um espectador atento, podemos perceber algumas dicas aqui e ali insinuando um delírio/imaginação). Com freqüência, os narradores góticos não são confiáveis, e essa é mais uma razão para suspeitar da realidade apresentada pelos delírios de Nina.

1.2 Cenário

Não é difícil perceber que os cenários de Cisne Negro jogam com preto e branco. Não apenas os cenários, mas também os figurinos são bastante representativos da oposição primária que o filme sugere: branco versus preto. Não me refiro à perspectiva reducionista de ‘bem versus mal’, pois ela nos levaria à problemática da definição de ‘bem’ e ‘mal’; além disso, tal perspectiva também nos deixaria com uma percepção mais ‘simples’ e ‘rasa’.  As cores aqui são profundamente simbólicas para a construção do significado; elas dão ao filme qualidades visuais que merecem ser notadas. Nina sempre veste cores claras enquanto outros personagens vestem quase sempre preto. À medida que o filme evolui e Nina entra em contato com seu outro (obscuro) eu, suas roupas adquirem tons acinzentados. Sua rendição completa à cor preta acontece no palco, quando o Cisne Negro já conquistou a superfície branca de Nina, por assim dizer. O uso de luzes e sombras também é um bom recurso para somar um significado mais profundo às cenas.

 

 

O sonho de Nina com o Lago dos Cisnes

1.3 Heroína

A típica heroína gótica é aquela que se encontra em perigo. Ela vive uma visa um tanto isolada e em clausura, e tem de lutar para vencer as ‘forças do mal’ que estão dispostas a conquistá-la. Na maioria das vezes, esta luta leva à uma espécie de auto-descobrimento.

De acordo com Hoeveler e Heller em Approaches to Teaching Gothic Fiction – the British and American Tradition*, temas góticos incluem:

[…] a experiência claustrofóbica feminina na família burguesa: relações pai-filha; os laços entre mãe-filha; e as atitudes freqüentemente ambivalentes frente à sexualidade, ao corpo e à criatividade artística. […] (Hoeveler e Heller, XII) (minha tradução)

Nina é uma prisioneira, cativa de sua própria moral e disciplina: ela tenta tanto ser perfeita que afasta qualquer coisa que a possa desviar do caminho que percorre. Seu corpo é a ferramenta através da qual seu trabalho ganha vida – uma ferramenta que não pode ser impura ou maculada – e, assim, seus mais profundos sentimentos são mantidos submersos. Até mesmo seus impulsos sexuais são reprimidos, e todas as suas tentativas de Nina dar prazer a si mesma falham, exceto quando ela experimenta sua delirante relação sexual com Lily – onde, na verdade ela está fazendo sexo seu próprio (outro) eu.

Mas não se pode dizer que Nina de fato ‘vence a batalha’ contra as forças obscuras que a cercam. E elas são muitas: somos levados a acreditar que Nina era (?) bulímica e que provoca ferimentos em si mesma (inconscientemente?); ela tenta, em vão, reprimir suas fantasias e desejos sexuais; ela fica um tanto neurótica à medida que a noite de estréia se aproxima; seu humor muda drasticamente sob pressão. Embora não haja vitória para Nina (pelo menos, não do modo tradicional), ela encontra o que procurava: perfeição. Tal perfeição, com certeza, tem um preço que ela está disposta a pagar, transformando-se na ‘heroína descendente’ (em oposição à ascendente) da trama.

Se o gótico levanta questões de identidade e sexualidade, pode-se perguntar quem Nina de fato é sob toda a disciplina e regras em que vive; e de forma a relação com a mãe a afeta – e o quanto dessa relação não é distorcida pela visão e pelos problemas de Nina.

 

Nina no palco como Cisne Branco

 

1.4 Realidade/delirio

O gótico desafia as fronteiras do ‘dentro/fora, mente/corpo e imaginação/realidade’ (Witt, 42)**. E lá vamos nós com Nina por sonhos, delírios e vida real (por vezes indistinguíveis) para investigar e testar limites. Até onde Nina tem de ir para alcançar aquilo que pelo que trabalha e o que deseja? Quais são as transgressões que terá de cometer? O que ela encontrará, e como será afetada pelas suas descobertas?

Depois de assistir ao filme, algumas das respostas podem estar visíveis. A busca de Nina a leva a encontrar (libertar?) um lado de si que ela matinha quieto e guardado (sob controle?); um lado poderoso e ansioso por estar do lado de fora, livre e sedutor. Seu corpo derrotou sua mente (a oposição mente/corpo aparece bem forte no filme) – mas o que Nina encontra não é a loucura, e sim sua outra, seu duplo (já anunciado na cena em que Nina cruza com ela mesma a caminho do metrô: essa outra Nina está vestida de preto, e tem uma expressão um tanto zombeteira no rosto; também é interessante notar a insistente presença dos espelhos refletindo Nina). Esta outra Nina também aparece em momentos específicos, como durante a experiência sexual de Nina com Lily/outra Nina, e durante a briga entre Nina e Lily/outra Nina no camarim na noite de estréia. Em determinado momento, há uma fusão entre Nina e a outra Nina que leva ao dramático final do filme. Essa fusão é simbólica, pois todo o tempo Nina e a outra Nina eram a mesma.

1.5 O Estranho

Esta outra Nina, trazida à tona pela entrega de Nina aos seus instintos (sombrios) pode assumir, no meu ponto de vista, o papel do estranho. De acordo com Freud em seu ensaio Das Unheimliche (1919), o estanho é ‘tudo aquilo que deveria ter permanecido secreto e escondido mas veio à luz’. No entanto, o estranho ‘é a estranheza dentro do familiar’***, ou seja, aquilo que se pensa estranho é na verdade conhecido nosso. Assim, a outra Nina não é um elemento externo e desconhecido, mas um elemento muito próximo e interno – o terror que vem de dentro do eu.

 

 

O delírio no espelho

 

 

2. O artista prisioneiro

Um dos aspectos de Cisne Negro que mais me chamou a atenção foi a metáfora sobre arte que o filme evoca. Explico: sob meu ponto de vista. Os cisnes branco e preto representam o dilema do artista em seu trabalho criativo. O cisne puro e branco (a Nina que se encontra na superfície) não é capaz de ser o artista perfeito – ele está para a disciplina e o autocontrole. O cisne negro e sedutor (a Nina que se rende à luxúria da carne e dos sentidos) incorpora a essência da arte, as entrega, do corpo. A fim de ser uma artista perfeita, Nina tem que abraçar o lado obscuro (negro) de si mesma, seu negro eu; e assim cada artista deve libertar suas mais profundas emoções e permitir que elas fluam sem amarras.

 

O Cisne Negro

 

Encerrando…

Cisne Negro é um filme que acontece nos detalhes, na sutileza da arte que é contar uma história. Considero o filme de uma beleza estranhíssima, e seu visual sombrio e trama terrível (no melhor sentido da palavra) me conquistaram. Os motifs góticos fazem do filme muito mais do que uma história sobre uma menina que tem problemas. Claro que não mencionei todos os motifs ou todos os aspectos que pretendia – primeiro, porque não pretendo esgotar a discussão (nem matar ninguém de tédio); e segundo, porque creio que alguém com mais experiência do que eu possa fazer um trabalho sério e belíssimo sobre o filme. Espero, ainda assim, não ter escrito nada de muito grave.

Cisne Negro nos envolve e desliza com a leveza de uma pena diante dos olhos para abordar com elegância problemas psicológicos, morais e sociais. Uma pena negra, eu diria.

*****

Referências

*Hoeveler, Diane Long and Heller, Tama, eds. Approaches to Teaching Gothic Fiction – the British and American Tradition. New York: The Modern Language Association of America, 2003.

**WITT, Judith. ‘And still insists he sees the ghosts’: defining the Gothic. In Hoeveler, Diane Long and Heller, Tama, eds. Approaches to Teaching Gothic Fiction – the British and American Tradition. New York: The Modern Language Association of America, 2003. p.39-45

***FREUD, Sigmund. Das Unheimliche. Citado em LLOYD-SMITH,  Alan. American Gothic Fiction – an introduction. New York: Continuum, 2004. p.74-75

2 thoughts on “Penas Negras [sobre Cisne Negro]

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s