de um azul muito claro

Ao fazer as malas, Sofia não esqueceu da caixinha. Era uma moça de natureza distraída, de um espírito tão mal ligado ao mundo real que sua existência pairava em ares aquarelados. Não foi por acaso que, ao deixar a casa que fora de seu pai, abandonou móveis, cortinas, panelas; mas a caixinha, não deixaria para trás. Aquele pequeno objeto era uma das poucas coisas que a ligava ao mundo real e que a lembrava de existir.

Sempre guardada no fundo do armário, a caixinha de papelão era de um azul muito claro, agora desbotado pelos anos. Levava pintados na tampa e nas laterais arabescos dourados e de revelo suave. O tempo os fizera um tanto apagados já, sulcos e ranhuras aqui e ali. Quando criança, Sofia gostava de correr as pontas dos dedos pela superfície da caixa, os olhos fechados, desenhando na mente as formas que tateava. Já não lembrava de quem havia ganho o presente, ou mesmo se alguma vez ali dentro houvera um presente; mas desde sempre a caixinha fora seu brinquedo favorito. Sofia era fascinada por aquele azul tão frágil, que só se via às vezes nas tardes de verão, quando céu se esquece de escurecer e a luz se deixa ficar.

Por dentro, a caixa era revestida por um papel branco, liso e macio, um pouco amarelado. Desse interior, não se tirava nada: havia apenas a caixa, o dentro e o fora. Mas, para Sofia, essa não era uma caixa vazia apenas. Quando criança, perambulava pela casa com sua caixinha azul, seus passos ecoando leves pelos corredores; ela e o brinquedo, inseparáveis. E se lhe perguntassem o que levava ali, respondia com simplicidade: “Sonhos”.

Chegando naquela cidade que seria seu novo lar, levando o pouco que tinha de si, decidiu não mais guardar a caixinha azul no fundo do armário, e sim mantê-la sempre à vista. Deixou a caixa sobre a cadeira ao lado da cama, para tirar dela um sonho bom antes de dormir e para devolvê-lo ao acordar. E ao correr do tempo, sonhava de novo e cada vez mais os sonhos de infância, perdida em fantasias onde era uma cigana, um pirata ou um espadachim. Relutava em depositar seus sonhos na caixinha: queria-os despertos, pois se na vida jamais amara ninguém por conta de seu espírito fugidio, em seus sonhos alcançava uma coerência que saboreava, faminta.

Mas foi quando atravessava a Rua Principal, numa tarde de outono, que Sofia viu sem ver a figura de um moço parado na calçada. Não o percebeu de fato até que ele se pôs em seu caminho: Sofia então se viu diante de um par de sapatos marrons, calças pretas, e uma camisa branca. Era um rapaz de rosto forte e sorriso franco, cabelos castanhos e tez morena de sol. Olhava-a com um olhar de namorado antigo. E de tudo Sofia esqueceu quando se deu com aqueles olhos de céu claro, aquele azul desmaiado que ela sabia tão familiar, mas ao qual nunca soube dar um nome. Amou-o, então, esquecendo-se de sua caixinha de sonhos guardados. Queria agora era sonhar os sonhos daquele Outro, viver para seus desejos e de suas fantasias. Depositaria naquele coração suas esperanças e devaneios, unindo-se para sempre e finalmente a uma outra alma neste mundo.

 

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conto nascido dia desses; parte de uma história maior

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