algo podre no reino da rainha: In the flesh, zumbis e tv de boa qualidade

Começo dizendo que nunca fui fã de zumbis. Os monstrengos nunca me conquistaram com suas carnes pra lá de passadas e comportamento imbecil. Nunca vi nada de atraente nas criaturas que só sabem proferir ‘miolos!’ a cada dois passos e nunca encontrei uma história/enredo em que os humanos fossem interessantes o bastante pra eu suportar os mortos-vivos. Nem The walking dead, que faz a cabeça de tanta gente nesse mundão, eu consigo assistir (sorry!), em especial pelo complexo de herói do protagonista.

Percebo a ironia de escrever sobre os zumbis e começar dizendo que não curto. Explico: voltava eu pra casa dia desses quando, no ônibus, duas meninas conversavam sobre TV e uma recomendou pra outra assistir In the flesh. ‘Que nome bom,’ pensei, e fiz uma nota mental de catar a série mais tarde. Achando que se tratava de qualquer coisa, menos de zumbis, usei o amigo Google e me deparei com o enredo:

‘Four years after the Rising, the government starts to rehabilitate the Undead back into the society including teenager Kieren Walker, who returns home to his small Lancashire village to face a hostile reception as well as his own demons.’ [retirado de In the flesh]

Ou seja, rolou uma parada sinistra no mundo que fez os mortos saírem dos túmulos prontos a devorar os amigos vivos, mas o governo descobriu um modo de reabilitar os malucos e recolocá-los na sociedade. Nosso herói, Kieren Walker, é um adolescente que volta pra casa em Lancashire (UK) depois de sair do centro de reabilitação e tem que lidar com essa condição peculiar de não estar mais morto. Nem vivo, tecnicamente.

In the flesh poster

In the flesh poster

 

Ok, mais do mesmo, não parece? Também achava. Por motivos de ‘rolou empatia e fiquei curiosa,’ resolvi ver o primeiro episódio e tentar entender a vibe da coisa. E não é que o primeiro episódio foi muito bom? [Fica registrada minha gratidão à menina anônima no ônibus, hein?] Mas foi um ‘muito bom’ do tipo ‘quero ver mais’, não só ‘ah, legal’. O que me chamou mais atenção nesse primeiro contato com a série foi o clima geral do troço – não só pela locação que é muito boa (falo dela daqui há pouco), mas a tensão que mantém aquele ‘climão’, sabe? Pensa só: o mundo foi tomado por criaturas irracionais que querem mais é te devorar, muitos dos teus amigos/parentes/vizinhos morreram durante o Levante, o governo resolveu que matar essa galera semimorta não era a solução e medicou o povo todo. Agora, eles voltam pra casa pra serem parte da comunidade. Tenso, non? Isso se tu é humano, né, porque se tu á zumbizim as coisas também não tão lá essas maravilhas: tu morreu mas acordou uma noite e teve que cavar teu caminho pra fora do túmulo, a fome era tanta que tu teve que matar pessoas pra comer (era isso ou morrer, meu bem); daí o governo te catou e te drogou numa clínica, te deu maquiagem e te devolveu pro mundo: te vira, honey. Bem assim.

Acho que o que mais me agrada em In the flesh é que os zumbis não são monstros acéfalos que têm o único objetivo de mastigar alguém. Como eles estão ‘como eram antes’ (só que não, porque estão mortos, néam), o drama fica mais elaborado porque o enredo pode se focar tanto nos vivos quanto nos não-mortos. Por exemplo, a gente fica sabendo logo no começo da série que, pra se defender do ataques dos recém-ressuscitados, os vivos formaram milícias pra patrulhar a cidade e arredores e explodir umas cabeças não pensantes. Claro que depois que a reabilitação começa, a ação é mais de captura do que de execução, mas a matança ainda se dá, sim.

 

 

O nosso herói, Kieran, é um zumbi meio deprê, mas carismático e sensível. Como eu disse, todos os reintegrados usam maquiagem pra esconder a decomposição e lentes pra camuflar os olhos incolores. E todo dia tomam uma dose da droga que faz com que eles sejam funcionais, comportadinhos, e dóceis. Esqueceu de tomar a dose? Opa, voltou a ser zumbizão, colega. O drama do Kieran é se reintegrar de novo à família (que tem problemas em aceitar esse novo-velho-membro) e ser aceito pelos vivinhos como ele é. A irmãzinha, essa sim é problemática, porque é membra ferrenha da milícia mais famosa do país. Mas, pra apimentar as coisas, tem o grupo dos zumb-rebeldes nesse admirável mundo novo – tratados, sim, mas que se negam a cobrir o rosto e usar lentes e pregam uma atitude ‘seja quem você é, não quem você foi’. Na real, existe um sentimento de culpa no plano de fundo – culpa por ser um morto-vivo, por deixar as pessoas desconfortáveis, por ter voltado pra ocupar um lugar que não te pertence mais. Alguns dos retornados já foram de fato substituídos por outra pessoa, uma vez que estavam mortos antes de não estarem mais. A fila anda, não?

A cidade onde se passa o vuco-vuco é pequena, interiorana, onde todo mundo sabe tudo da (sobre)vida do outro. Parece que o troço todo teve início ali e os locais servem de exemplo e inspiração pro resto da nação – tudo vai sendo explicado aos poucos, então tem que ficar ligado nos diálogos do pessoal. Ah, e também tem a chuva. Não seria uma produção britânica se não fosse 90% do tempo nublada e/ou chuvosa, o que não atrapalha – pelo contrário, empresta toda uma aura pro local com muita neblina, umidade, frio. Um mundo meio cinza, de tons pastéis, onde mesmo quem tá bem vivo parece meio moribundo.

 

Kieran e Amy, melhores amigos mortos pra sempre

Kieran e Amy, melhores amigos mortos pra sempre

 

Como disse antes, a dramatização de um grupo de zumbis em recuperação me interessa pelas possibilidades de ver diferentes personalidades lidando com os problemas que essa situação impõe. Com o desenrolar dos 9 episódios, a gente descobre como o Kieran morreu, como o governo resolveu investir na reabilitação em massa (o que inclui até um vocabulário próprio, como chamar o mortinho-vivo de Portador da Síndrome da Morte Parcial – Partially Decesed Syndrome Sufferer, ou PDS), quem são e o que querem os rebeldes, quais os planos do governo para lidar com a volta dos que se foram e otras cositas más (eu: evitando spoiler e sendo legal).

Claro que também rolam as questões mais filosóficas, como o que fazer com a imortalidade, aceitar ou não viver sob a pressão dos vivos, não aceitar os podrinhos como humanos, necrofilia e, claro, o quão viva segue a humanidade? Também tem os embates religiosos, com toda uma pregação fervorosa de que os zumbis são demônios, servos de demo, impostores que só querem é fazer de alguém a refeição, que quando morreram deixaram de ser humanos e por aí vai. Como sempre, falar de zumbis serve de metáfora pra vida que levamos hoje, mas isso não é feito de forma chata e repetitiva, tipo sermão. É tudo nas entrelinhas, amigo.

 

zumbizada tocando o terror

zumbizada tocando o terror

 

Falei lá no começo que não curto zumbis, mas não pense que por isso em In the flesh não tem gosma preta, monstrengos mordendo humanos, cabeças explodindo, zumbis raivosos e nada charmosos, ou corpos desnudos em decomposição. Tem isso tudo, sim, mas o modo como os roteiristas tratam o tema faz com que In the flesh seja uma das melhores séries que já vi. Nem eu acreditei que gostei TANTO do negócio, mas digo com sinceridade que é uma produção excelente. Despretensiosa, não subestima a audiência e garante entretenimento até pros mais conservadores quando o assunto é zumbilândia. Fora as reviravoltas sensacionais do roteiro, gente, fiquei passada em vários momentos. É uma série que vai te agarrando aos poucos, sabe, mas com dedos gelados e sem vida, mas tu acha tão legal que fica se perguntando porque a BBC ainda não anunciou a terceira temporada.

*****

In the flesh no IMDb

Uma bizoiadinha no primeiro episódio

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