Eu leio #3: Heartless, da Marissa Meyer – resenha

Interrompendo a listagem de leituras do ano pra falar um pouco desse livro amadinho!

Vou tomar a liberdade de chamar esse post de resenha, mas tá mais pra opinião parcial do que qualquer outra coisa.

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Começo dizendo que esse foi, pra mim, um dos livros mais esperados do ano. Quando a autora anunciou a data de lançamento, fiquei contando os meses (sou dessas!). Me tornei fã da Marissa Meyer depois de ler As crônicas lunares (falei delas um pouquinho aqui) e admiro muito o trabalho que ela faz de dar uma cara nova e moderna pra histórias que a gente já conhece e gosta há tempos. Aí, quando li o resumo do livro, senti que precisava dele na minha vida, tanto que no dia do lançamento já garanti meu e-book e ME JOGUEI!

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Livro: Heartless, da Marissa Meyer (Feiwel & Friends, 2016)

É sobre o quê? O livro conta a história da Rainha de Copas antes de ela ser o terrorzinho que a gente conhece, quando ela era apenas uma mocinha que queria realizar seus sonhos. Mas ela se vê dividida entre ir em busca do seu destino e o dever que tem com a família de se tornar a próxima rainha.

 

 

Tudo bem que a gente já sabe como termina (senão ela não seria Rainha, né?), mas o divertido é como vamos chegar lá. Assim, Heartless é uma prequel – uma história que veio antes das que a gente já conhece, ou seja, antes de As aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho. Nesse caso, a Meyer se apropria dos personagens do Lewis Carroll pra contar essa história, mas respeita toda a lógica que ele criou pra esse universo ficcional e usa, até onde minha memória ajuda, todos os personagens criados por ele.

A história começa com a Rainha jovem, quando ela era apenas a Catherine Pinkerton, filha do Marquês de Rock Turtle Cove. Catherine é uma excelente confeiteira e sonha em abrir uma confeitaria com a melhor amiga e criada Mary Ann. Mas, como ela é nobre, abrir o próprio negócio é meio mal visto, seguindo a lógica de que quando se tem dinheiro, trabalhar pra quê?

Um dos aspectos mais bacanas da história é que alguns elementos dos sonhos da Cath se materializam na vida real: depois de sonhar com tortas de limão, ela acorda com um limoeiro no quarto, os galhos abraçando a cama. Isso acontece mais umas vezes, mas senti falta de uma exploração maior desses detalhes. Por falar em torta de limão, a comida tem um papel muito importante na narrativa (as descrições me deram água na boca) e quase todos os maiores acontecimentos da história giram em torno dos alimentos/refeições, particularmente os doces.

Todos no Reino de Copas conhecem a fama dos doces da Catherine, mas o maior fã dessas iguarias é o Rei. Ah, o Rei: uma criaturinha meio inútil e cômica, um covarde apaixonado pela Cath, que acaba sendo o grande empecilho pra mocinha realizar seus sonhos. Aliás, todo mundo na corte é uma mistura de cômico e de absurdo, em especial a Lady Mearle, que tem um ditado pra tudo, mas sempre o ditado errado. O Valete de Copas (Jack the Knave) é um chatonildo crônico, daquele tipo ultra sincero, doa a quem doer. Ri mesmo com muitas das cenas!

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Minha versão em e-book

Mas, no meio do caminho, também tem o Bobo da Corte, recém contratado do palácio pra divertir a galera. Aqui, o Bobo (Jester, no original) tem umas habilidades muito sensacionais, um chapéu de três pontas genial, e é uma figura muito enigmática. Ele não é um Bobo comum, nem na aparência: se veste sempre de preto e maquiagem me parece bem teatral, com o delineador fortíssimo e borrado, no melhor estilo rock star. Isso somado ao fato de que ele tem como parceiro de cena um corvo esquisitão – aqui, a Meyer se apropria de um outro clássico, O corvo, do Poe, usando vários elementos do poema de uma forma muito bacana. O corvo do Jester também fala (assim como todos os animais do Reino) e lá pelas tantas a gente descobre mais sobre esses dois personagens, o que acaba afetando o final da história.

Claro que o climinha entre a Cath e o Jester se desenrola num romance meio torto, com o Bobo tendo que ajudar o Rei a cortejar a pobre moça (AWKWAAARD!). Jest é cheio das surpresas: ele leva a Cath pra uma tea party surreal oferecida pelo Hatta (o Chapeleiro, antes de ser maluco), com uns convidados inusitados e uma dinâmica bastante peculiar. Enquanto isso, o Rei manda uns presentes acompanhados de uns poemas péssimos pra tentar conquistar a prometida.

Daí que a Cath se vê dividida entre o dever de filha única do Marquês, aceitando o pedido de casamento do Rei, e o sonho de ser livre e feliz com a confeitaria e o Jester. Não tá fácil. Ainda mais que vão surgindo várias outras complicações e distrações: o triste caso da Tartaruga que se transforma na Tartaruga Fingida, a eterna guerra entre as rainhas Branca e Vermelha e o terrível Jaguadarte (Jabberwock) que vem aterrorizar o Reino.

A Catherine acaba descobrindo que o papel dela é muito mais importante do que ela gostaria e que, às vezes, não se pode fugir do destino (um espelho e uma espada vorpal estão envolvidos). A transformação da personagem de uma jovem doce e sonhadora pra Rainha de Copas é incrível e a Meyer conseguiu costurar direitinho uma história que explica como isso aconteceu. Claro que é tudo invenção dela, mas precisamos admirar o talento e a capacidade de surpreender.

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Capa alternativa

 

Não tenho como comentar mais sem dar spoilers, mas só queria registrar que alguns elementos do texto são MUITO geniais: o Hatta que foge do Tempo pra evitar a loucura; os chapéus que ele cria e os efeitos que eles têm; o jogo de críquete (com os ouriços e os flamingos!!!) rende uma cena muito engraçada; a travessia entre os reinos e a presença das Três Irmãs (Elsie, Lacie, e Tillie, da história do Arganaz, inspiradas nas irmãs Liddell) que parecem saídas de um filme de terror; a menção de uma menina que teria caído num buraco e que teve que tomar uma poção pra diminuir de tamanho (todo mundo sabe da tal poção: cuidado na cozinha!). Detalhes que enriquem muito a leitura!

Acho que quem nunca leu as obras do Carroll também vai conseguir se divertir e aproveitar o livro. Mas confesso que saber de onde saíram os personagens e o universo da história em si traz um gostinho especial pra narrativa. Eu tava muito curiosa sobre como a Meyer ia resolver tudo e fiquei muito feliz com o resultado: foi até mais do que eu esperava! E sim, somos recompensados com a origem da tão famosa frase OFF WITH ITS HEAD (cortem-lhe a cabeça)! Valeu a pena esperar (;

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