Vi um filme #1: Évolution (2015)

Resolvi aproveitar o fato de que vejo muitos filmes e falar um pouco deles. Pra isso, estreio hoje a série Vi um filme, onde o plano é dar minha impressão/opinião sobre filmes recentes e nem tão recentes e quem sabe indicar um filminho pro fim de semana de vocês. Vai ter de tudo um pouco, porque além dos filmes de Hollywood, gosto muito de experimentar produções diferentonas e de lugares inesperados.

Não sou entendida, nem de longe. Só gosto muito de cinema e procuro ‘me educar’ no assunto. Então vou falar das minhas ideias mesmo e desculpa aí qualquer bobagem. Vou inaugurar com um filme francês que vi no último sábado.

Évolution (2015)

Entre ficção científica e horror, Évolution surpreende pela fotografia e pelas sutilezas da direção.

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Nicolas tem uns dez anos e mora numa ilha habitada por meninos e por suas mães. A rotina deles envolve nadar no mar, brincar com os outros meninos, comer e dormir. Ah, e depois das refeições eles têm que tomar remédio porque estão doentes. Nem tudo são flores.

A sequência de abertura já te coloca em guarda: enquanto nada, Nicolas vê um menino no fundo do mar. A cena é muito rápida, mas numa segunda olhada, dá pra perceber que o corpo tem quase a mesma cor dos corais. O único ponto que se destaca é uma estrela do mar vermelha sobre o abdômen do menino.

Quando Nicolas conta pra mãe o que viu, ela não dá muita importância e insiste que o mar ‘faz você ver coisas’. OK. Quando todos os outros meninos vão pra praia depois que o Nicolas contou pra eles o que viu no fundo mar, o resultado não convence: a mãe volta do mergulho com a estrela, mas garante que não tem corpo nenhum. Tá, mãe, senta lá.

Como já falei antes, os meninos estão doentes e são levados pro hospital da ilha pra serem curados. Nicolas vai com a mãe tomar uma injeção e passa a noite no hospital. Stella, uma das enfermeiras, descobre que Nicolas tem um caderno onde desenha aleatoriamente: uma bicicleta, um carro, um gato. Essa cena, que parece tão comum, carrega uma importância tremenda pro desenrolar da história e se percebe a preocupação da direção em te dar os detalhes: a posição da câmera, os closes, os silêncios. Tremenda fotografia. Se tu tava prestando atenção no filme até aqui, vai entender porque os desenhos são importantes.

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Nicolas não é o único a passar a noite no hospital (ah, esse hospital!): quando ele acorda, percebe que os outros meninos também estão lá e um deles, levantando a camisa do pijama, mostra a cicatriz na barriga: ‘Olha o que fizeram comigo’. Ué? Acontece que todos têm a mesma cicatriz e Nicolas acredita que as mães estão mentindo.

De volta em casa, ele resolve seguir as mulheres, que saem de casa todas as noites enquanto os filhos dormem, pra saber o que elas fazem. A partir daí as coisas pioram muito, colega. O que ele descobre é só o começo de um desenrolar perturbador onde a própria realidade é colocada em questão. O filme é visualmente lindo, mas te incomoda em vários momentos e em vários níveis.

Esse filme deve ser um dos mais ‘despidos’ que já vi: o cenário é mínimo e só tem o indispensável. O uso das cores reforça a impressão de que esse não é um filme sobre uma ilha paradisíaca onde mães e filhos vivem felizes. Tudo é um tanto ‘descolorido’ – verde escuro, marrom e tons terrosos e até o oceano parece meio dessaturado. As cores mais vivas são da estrela e da bermuda do Nicolas. Nota: a única coisa que se come na ilha é um tipo de macarrão (mas desconfio que sejam enguias) com um molho preto (que parece aquela tinta do polvo, sabe?). Tem uma cara péssima.

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Dá uma boa olhada pra esses meninos aí: todos tem a mesma idade, são fisicamente parecidos, só os cabelos variam um pouco. E as mães? De longe, parecem cópias da mesma mulher. De perto, as semelhanças são assustadoras. Elas me lembram um pouco as pinturas barrocas, em especial A menina com o brinco de pérolas, mas não têm nada a ver com os retratos coloridos e luminosos do Vermeer.

 

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Stella, a enfermeira

 

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A menina com os brincos de pérola (1665), de Johannes Vermeer.

Évolution conta também com o silêncio e com longas sequências pra transmitir sua história: algumas cenas não tem diálogo algum, apenas closes nos rostos dos personagens, em especial no olhos, que comunicam muito do sentimento do momento. É um filme muito sutil que conta com quem assiste pra preencher as lacunas; não é óbvio nem te considera incompetente pra entender sozinho o que está acontecendo. Mas, na maior parte do tempo, aprendemos junto com o Nicolas, que reforça aquela sensação de que tem coisa errada aí.

Tem elementos de horror e de ficção científica e apesar da tensão, não senti o tempo passar. Um filme provocativo e esteticamente único, que sabe bem a que veio e não decepciona com o final!

 

 

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Gênero: Horror; Mistério

Direção: Lucile Hadzihalilovic

Roteiro: Lucile Hadzihalilovic e Alanté Kavaïté

Duração: 81 minutos

Elenco: Max Brebant, Roxane Duran, Julie-Marie Parmentier e outros.

 

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