Amores e vícios #1: slam poetry, ou poesia de performance

Até hoje não encontrei uma tradução boa pra ‘slam poetry’. Não acho que ‘declamação’ ou ‘recitação’ dão conta da expressão – até porque quando eu falo em ‘declamar um poema’ eu lembro da escola e parece uma coisa menor e meio boba.

Eu conheci esse tipo de poesia quando vi a fala da Sarah Kay no TED. Não fazia ideia de isso existia e um mundo novo se abriu pra mim; virei fã do estilo e hoje sigo alguns canais do YouTube dedicados os tema. Depois descobri que a Sarah Kay era bem famosa e há anos ela tem um projeto de slam poetry com o melhor amigo dela.

Vou usar esse negócio de ‘poesia de performance’ por falta de uma ideia melhor. Mas o conceito é o seguinte: um poeta, um microfone, um público e um poema. Não é só recitar as palavras, mas interpretar o texto – e como é sempre o autor que recita suas próprias palavras, ele/ela sabe melhor do que ninguém qual a intenção por trás delas. Imagina um espetáculo de stand-up, mas em vez de comédia, poemas. Se tu nunca ouviu falar disso, vai por mim: tem poeta ganhando a vida fazendo turnê e tudo.

Parece que a origem dos slams vem dos anos 1980, quando a cultura dos ‘open mics’ (‘microfones abertos’) começou a se popularizar pelo bares americanos, em especial Nova York, Austin e São Francisco. Por muito tempo, foi um movimento meio underground, mas no início dos anos 2000 teve até um programa de tv que levava os poetas pra rede nacional. Além das performances em bares e cafés, também existem competições concorridíssimas em níveis locais, nacionais e internacionais, com jurados e premiações em dinheiro. O negócio é pra quem leva poesia a sério, mesmo.

Pode ser solo, em dupla, em trios e assim por diante. Olha só essas duas meninas (closed captions podem ajudar porque elas falam muuuuito rápido no começo):

Os temas podem ser os mais variados, ainda que algumas pessoas digam que o conteúdo dos poemas é sempre político. Honestamente, eu não vejo muita diferença entre o pessoal e o político, já que todos somos seres pensantes inseridos na sociedade e todas as nossas atitudes, opiniões, e mesmo nosso discurso, são políticos (não me refiro a partidos, veja bem: falo do teu lugar no mundo, como a pessoa que tu é). Por isso, tem poemas sobre tudo: relacionamentos, eleições, família, comida, memórias, corpo, animais de estimação, notícias, etc.

O que importa é a performance. Nas mostras ou concursos mais rígidos, o poeta não pode usar acessórios, figurinos ou música. Mas é tudo relativo: uma das minhas poetas favoritas usa música (com letra, inclusive) durante os shows e eu acho sensacional. Então, cada evento vai fazer suas regras e, no caso de uma competição, essas regras vão ser divulgadas pra todo mundo no momento da inscrição.

Por falar numa das minhas poetas favoritas, segue aqui um poema dela, Andrea Gibson (de novo, closed captions ajudam, mas não são 100% corretas):

Outro elemento que dá uma cara muito própria pros eventos de slam poetry é o público: diferente de uma sessão de leitura aberta (de um poema ou excerto de livro), durante os slams a plateia pode (e é encorajada) a reagir enquanto o poeta comunica. Parece muito com uma peça de teatro: o público reage na hora e o poeta tem um retorno instantâneo do seu trabalho.

O som das palavras e o ritmo do poema são muito importantes. Cada poeta coloca individualidade na sua performance, por isso não tem uma fórmula mágica. É bacana reparar que os poemas têm dinamismo (podem ir do sussurro ao grito), cadência (aumentando ou diminuindo a velocidade) e até pausas (pra ênfase ou efeitos dramáticos). Olha esse exemplo do Harry Baker (campeão mundial de slam poetry):

Ele usa um assunto que é do cotidiano dele, matemática, pra criar um poema que tem um ritmo definido (até porque ele fala super rápido) e que parece muito o rap ou o hip-hop (ele mesmo diz que era um rapper antes de ser poeta, então a influência tem origem certa).

Nessa outra performance ele também usa a matemática, mas pra fazer um poema sobre números primos. Esse não tem o mesmo ritmo, mas tem rimas e o Harry usa velocidades diferentes nas frases pra alcançar efeitos muito legais:

Todo poeta de slam poetry é um pouco ator: além de memorizar linhas e mais linhas de texto, o objetivo final é provocar na plateia uma reação ao seu poema e a sua atuação. Um dos poemas mais maravilhosos que já ouvi até hoje chama “Carolina”, do Khary Jackson e nada até hoje conseguiu me tocar como esse poema na primeira vez eu vi (as closed captions não funcionam tão bem aqui):

No Brasil também tem, viu? Competições e noites de slam, estamos antenados! Infelizmente, a divulgação é pequena e o alcance bem menor do que o ideal, mas pesquisando o movimento, dá pra perceber que ele tá bastante ligado às zonas de periferia e a iniciativas que buscam discutir identidade, raça e gênero. Vi que tem eventos rolando em São Paulo, mas pelo que entendi os circuito é nacional, inclusive com a participação de DJs e MCs e de nomes como Sabotage. Alguns exemplos:

A internet é um universo infinito: dá pra encontrar slam poetry  no YouTube, no Facebook, no Tumblr e etc. e muitos poetas têm sites e onde dá pra acompanhar o trabalho de perto (;

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s