Vi um filme #2: Operator (2016)

Operator (2016)

Um filme honesto sobre a vida a dois, tecnologia e (in)dependência.

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Joe é desenvolvedor de softwares que se vê diante de um cliente que exige uma nova versão pra um software de reconhecimento de voz/atendimento automático que ele criou. A solução perfeita pra ele é contratar a própria esposa, Emily, pra ser essa nova voz. Emily é um poço de delicadeza e paciência e ajuda o Joe nos momentos difíceis. O problema surge quando o Joe passa a depender da Emily virtual, colocando em risco a própria sanidade.

É impossível não pensar em Her (Ela) enquanto se assiste Operator: as semelhanças são muitas. Eu diria que Operator não chega a ser tão doloroso (nem tão audacioso em termos de estética) quanto Her, mas com certeza expõe problemas da sociedade moderna e levanta questões relevantes não só pra casais, mas pra todo mundo.

O Joe é um cara que funciona bem na rotina, no previsível e isso fica muito claro em várias sequências repetitivas em que o dia-a-dia do casal é exposto. A abertura do filme é feita pelos gráficos que o Joe cria e aos poucos vamos percebendo que ele quantifica tudo: o sono, os exercícios, o trabalho, o sexo, os sentimentos. Ainda que analisar dados seja o trabalho dele, tem algo de desconcertante nisso, o que acaba dando a impressão de distanciamento entre a gente e o personagem – o que é exatamente a intenção. Logo no início, entendemos que essa análise da vida é um mecanismo pra lidar com a ansiedade e com ataques de pânico.

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Do outro lado, a Emily é uma pessoa otimista, sensível e que se importa muito com os outros. Em vários aspectos, ela e o marido são opostos: enquanto o Joe prefere a planejar tudo, a Emily entra pra um grupo de teatro de improviso; ela e doce, engraçada e amorosa – ele é contido, tímido e analítico (às vezes mesmo frio e insensível com os colegas e amigos diante das evidências científicas). Trabalhando como recepcionista num hotel, Emily testa a paciência todos os dias e resolve tudo com muita calma e profissionalismo, sem nunca levantar a voz.

É durante um dos ataques de pânico do Joe que ele percebe que a Emily é a resposta pro problema da companhia em que ele trabalha: tanto a personalidade quanto a voz dela são perfeitas pro sistema de atendimento de um plano de saúde, cliente que quer uma versão melhorada do projeto em andamento. A Emily aceita e começa a gravar as frases, o que acaba mudando o rumo e o objetivo do sistema com base em quem ela é e como trata as pessoas.

O problema é que as coisas começam a mudar na vida do casal e o Joe não lida bem com isso. Enquanto a esposa muda, ele pode controlar o sistema e aí mora a armadilha: o previsível é confortável, fácil, familiar. Joe se relaciona melhor com a Emily virtual do que com a mulher dele, o que causa muitos problemas.

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Uma das coisas que mais gostei em Operator é a simplicidade com que se conta a história. Detalhes vão dando peso à narrativa, como os gráficos (lindíssimos) que aparecem medindo eventos importantes, as fotos que o Joe tira todos os dias do píer, os textos dos improvisos da Emily no teatro. Tudo vai se costurando até chegar no maior momento de tensão pra ser bem aproveitado na epifania final.

Acima de tudo, Operator questiona nossa humanidade e os laços que construímos com pessoas ao nosso redor. Bem no começo do filme, tem uma discussão sobre simpatia e empatia (se sensibilizar pelo outro versus compreender o outro num nível emocional) que vai permear toda a narrativa: um ser humano incapaz de empatia é uma máquina? Como inserir essa qualidade numa personalidade virtual? Quais os efeitos disso nos usuários? Até que ponto a empatia pode prejudicar uma pessoa?

Martin Starr (Joe) e Mae Whitman (Emily) são excelentes protagonistas e se emprestam pros seus personagens com honestidade. A relação dos dois sofre com as mudanças, mas também passa pela análise, afinal eles são praticamente opostos e existe uma dependência muito grande do Joe em relação em Emily e ele tem consciência disso. Ao mesmo tempo, ela sente vontade de experimentar uma independente, que pode ser boa, mas que poderia ser melhor. A oposição entre os dois é acentuada pelo figurino (ele usando cores frias e ela, cores quentes e estilos muito alternativos), pelo cenário e pela trilha (é gritante a diferença entre as corridas dele e os improvisos dela no teatro, por exemplo). O uso da câmera também é um ponto importante: quando o Joe fica nervoso, o foco muda (chegando mesmo a desfocado) e os movimentos são mais bruscos.

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Ainda que às vezes não seja muito sutil, Operator problematiza a tecnologia de uma forma muito empática – quem nunca desistiu de falar com alguém que não larga o celular ou que não tira o olho da tv? Todo mundo tem um momento desses e o filme é esperto o bastante pra apresentar personagens comuns, vivendo uma vida normal, hoje, que tropeçam na barreira tecnológica pro bem e pro mal. Enquanto Her é audacioso e poético, Operator é humilde e romântico, mas os dois são eficazes em problematizar as relações humanas e o sonho de um relacionamento perfeito.

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