Eu leio #7: More happy than not, do Adam Silvera

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E se fosse possível apagar da tua memória aquilo que te entristece?

*

2017 chegou, os trabalhos recomeçaram e é hora de zerar a listinha de leituras pro novo ano. Eu sou a pessoa do ‘copo meio vazio’, então prefiro colocar fazer metas mais realistas porque VAI QUE e eu nem leia o que me prometi, né? Um prevenido vale por dois! Ó, meu perfil do Goodreads tá aqui – passa lá e espia os livrinhos todos (;

Eu sou muito indecisa pra escolher minhas próximas leituras, o que me leva pro booktube, (onde eu fico invejando as estantes bonitas e a aumentando sem controle a lista de livros pra ler) ou pro BuzzFeed Books (que faz aquelas listinhas de livros que nunca vou zerar) pra pegar umas dicas do que ler. Chega a ser engraçado (triste?), porque começo um livro e, mesmo que eu esteja adorando, já fico pensando no que ler depois: poligamia.

Eu acho que a primeira vez que li sobre More happy than not foi no BuzzFeed. Lembro de ter achado a sinopse interessante, mas não sei porque não fui ler logo – devo ter feito zoínho pra outro volume na época e perdemos contato. Por algum motivo, lembrei desse crush no Ano Novo, retomei contato e BOOM! Pode ser cedo pra dizer, afinal a gente se conhece há pouco, mas tudo indica que é amor ❤

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Livro: More happy than not, do Adam Silvera (Soho Teen, 2015)

É sobre o quê? É a história do Aaron Soto, um garoto de 16 anos morando no Bronx (EUA), que está tentando lidar com o suicídio do próprio pai com a ajuda dos amigos e da namorada. Existindo num futuro não muito distante, o Aaron é assombrado pela presença do Leteo, uma empresa que promete a felicidade através de alterações na memória dos clientes, o que permite que eles apaguem tudo aquilo que causa tristeza.

Acho difícil ler essa sinopse sem pensar em Brilho eterno de uma mente sem lembranças – mas More happy vai além do enredo do ‘quero te esquecer’ porque traz pra discussão problemas como raça, classe e gênero, além de esboçar uma problematização sobre o trauma e a memória, o que acho fascinante. Ainda que o protagonista seja um adolescente, não acho que o livro perca profundidade ou seriedade – pelo contrário, porque o Aaron se encontra naquele momento da vida em que a gente mais tem dúvidas, angústias e medos somados à condição familiar/social em que ele se encontra.

O Aaron vive numa comunidade bastante unida (nem sempre pelas melhores razões) e ali ele tem muitos amigos com quem gosta de passar o tempo, mas sabe que esses meninos não entendem como ele se sente com o suicídio do pai e a forma como isso interfere na sua vida. O Aaron namora a Genevieve, com quem compartilha a paixão pelo desenho, histórias em quadrinhos e arte e encontra nela um porto seguro, alguém que compreende e dá apoio. Ele divide um quarto-e-sala com a mãe e o irmão; todos têm empregos pra poderem sobreviver sem o pai, mas a situação anda bem apertada.

more-happy-smileyUm dos pontos mais marcantes do texto do Silvera é qualidade da construção desse universo ficcional: parece que Nova Iorque não existe além do Bronx e nessa vizinhança a gente encontra um microcosmos do mundo exterior: grupos, classes e raças bem divididos, o que me transmitiu, em vários momentos uma sensação de injustiça e exclusão muito grande. É nesse bairro que o Aaron e os amigos se divertem, seja andando de bicicleta, conversando na calçada, ou mesmo jogando uma espécie de tag bem violenta.

Além do suicídio do pai, o Aaron também enfrenta a perda não só de um, mas de dois amigos: depois de um envolvimento amoroso com a garota errada, Kyle vira alvo do namorado da mocinha; mas acontece que o irmão gêmeo dele, Kenneth, é quem acaba morto pelo ciúme. Kyle, devastado pela morte do irmão, resolve se submeter ao processo do Leteo e apaga da memória (e da vida) todos os traços do outro, acreditando que sempre foi filho único. Depois disso, a família acaba se mudando e a relação do Aaron com o Kyle fica esquisita, porque é impossível olhar pro amigo sem lembrar do Kenneth que, pra todos os efeitos, nunca existiu.

more-happy-smiley-2Todos esses fatores contribuíram para que o Aaron tentasse cometer suicídio (que livro leve, né?) – mas juro que não é deprê, porque o Silvera tem um jeito muito peculiar de contar todas essas coisas horrorosas: a voz do Aaron empresta uma leveza pra história e até certo humor. As coisas começam a tomar outro rumo quando a Genevieve vai passar um tempo fora e o Aaron faz amizade com um garoto da vizinhança, Thomas. É através dessa amizade que ele descobre algo sobre si mesmo: ele se sente atraído por meninos, mas já sabe que vai enfrentar muitos problemas em relação a isso: a comunidade em que mora não aceita a homossexualidade, ele tem medo de perder a Genevieve e talvez mesmo o Thomas que, tudo indica, não sente o mesmo por ele.

As coisas vão ficando piores até que o Aaron decide se submeter ao procedimento da Leteo: se eles podem manipular as memórias, talvez também possam manipular a opção sexual? Ok, não vou dar spoilers, mas vou dizer que nesse momento da narrativa tem um plot twist que me pegou muito de surpresa e me fez querer terminar o livro imediatamente!

More happy traz pra discussão a aceitação pessoal e coletiva da sexualidade, do que é ser ‘normal’ e dos efeitos que a sociedade/comunidade tem sobre a vida de cada um, em especial de adolescentes que estão, eles mesmos, descobrindo o mundo e entendo seu lugar dentro dele. Além disso, a narrativa fala da tristeza e da depressão, que não precisam ser enterradas ou colocadas de lado para que a gente possa seguir vivendo, sem cair no lugar-comum da romantização da depressão. Mas se a gente nunca sente a tristeza, como sabemos quando estamos felizes?

Um livro agridoce, que me fez rir e chorar, que é inesperado não só pela trama e pelos recursos que usa pra contar uma história, mas pela simplicidade e honestidade com que trata da vida de um garoto que deseja, acima de tudo, ser feliz.

E assim as leituras de 2017 começaram muito bem! 😀

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4 thoughts on “Eu leio #7: More happy than not, do Adam Silvera

  1. Pingback: Eu leio #8: 7 leituras de janeiro | undone thoughts

  2. Eu quase morri chorando lendo esse livro. Não fazia a menor ideia de que o enredo descambava pra um lado tão doloroso, e também não conhecia o estilo do Adam Silvera. Aliás, ainda não li mais nada dele, mas pelo que vi ele gosta de esfaquear nossos corações, não é? Confesso que tô completamente desencorajada a ler mais ele. Ainda não me recuperei!

    • Esse foi o primeiro que li dele. Acabei lendo o segundo livro do Silvera, lançado agora em 2017. Não achei tão bom (ou tão inesperado) como o More Happy…, mas gostei bastante. E sim, ele gosta de maltratar nossos coraçõezinhos ahahaha

  3. Pingback: eu leio #16: leituras de setembro | undone thoughts

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