Vi um filme #3: La La Land: Cantando Estações (2016)

Um dos queridinhos da temporada e favorito ao Oscar, La La Land tinha tudo pra me agradar muito, mas… SEMPRE TEM UM “MAS”!

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Esse texto pode conter spoilers moderados.

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O enredo: Mia (Emma Stone) é uma atendente que sonha em ser uma atriz de sucesso, mas a vida não anda fácil. Sebastian (Ryan Gosling) é um pianista apaixonado por jazz que sonha em abrir o próprio bar, mas a vida não anda fácil. Depois de algumas esbarradas por Los Angeles, os dois decidem sair juntos e começam um relacionamento que tem tudo pra ser maravilhoso.

Anunciado como uma espécie de ‘milagre dos musicais modernos’, La La Land é, pelo menos em teoria, o filme perfeito para Hollywood: tem música, dança, bom elenco e uma direção competente. Não tenho dúvidas de que vai abocanhar muitas estatuetas nas premiações do ano (levando em conta o arrastão que fez no Globo de Ouro) por ser, sim, um bom filme; longe de mim avacalhar uma produção desse porte, que anda arrancando suspiros de tanta gente mundo afora. Mas, depois de assistir ao filme, fiquei me perguntado se o problema era eu – ou quem sabe uma pré-indisposição minha – ou se minhas impressões eram mesmo verdadeiras. Então, vamos por partes.

Eu tenho um fraco por musicais e La La Land tem todos os ingredientes pra fazer meu coraçãozinho se contorcer de alegria – talvez minhas expectativas estivessem muito altas depois de tanto alvoroço? O filme se propõe como uma homenagem aos ‘Anos dourados’ dos musicais de Hollywood, com muitas referências visuais e verbais aos clássicos e talvez aí esteja a semente da adoração dos críticos pelo filme – isso ou eu não entendo nada de nada mesmo (sempre uma possibilidade).

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Visualmente, o filme é riquíssimo: as cores são empregadas de uma forma fantástica, os figurinos são lindos e o cenário é uma das coisas mais bacanas da produção – vi algumas pessoas reclamando da ‘falsidade’ do cenário, mas isso não me incomoda, pelo contrário: pra mim, dá uma personalidade e charme pro filme porque é pra ser ‘falso’ mesmo, afinal, quase todas as cenas se passam num estúdio dentro de um estúdio (meio inception, sabe?). Além disso, os filmes dos anos 1950 e 1960 (de onde surge a inspiração pra La La Land) tinham pouquíssimas externas e, como a Mia trabalha num café dentro de um estúdio, acho justo e apropriado que a escolha seja brincar com o ‘real’ e o faz-de-conta.

O subtítulo em português, ‘Cantando Estações’, se deve ao fato de que o filme se divide em ‘capítulos’ e cada momento da narrativa se dá numa determinada estação do ano, o que faz com que o enredo flua de uma forma bastante orgânica e ‘combinadinha’ com o que a gente espera de cada período. Eu achava que La La Land era um ‘apelido’ pra Los Angeles, mas descobri que a gente também pode se referir à indústria cinematográfica com essa expressão; outro uso tá relacionado com o significado mais peculiar da frase, que é empregado pra dizer que a pessoa tava ‘viajando’, sabe?, tipo com a cabeça nas nuvens, bem longe? E achei curioso como tudo isso se aplica ao contexto do filme que, além de se passar em Los Angeles e tratar da indústria do entretenimento, cria uma espécie de bolha pro casal, um lugar que só eles habitam e que é abalado pelo mundo real.

No elenco, temos o Ryan Gosling e a Emma Stone repetindo a dobradinha que parece ter agradado em outras produções (Amor a toda prova e Caça aos gângsteres), com ótimas atuações –destaque pra Stone que faz milagre com o texto. Apesar dos trailers focarem no romance entre os dois – onde os personagens seriam igualmente importantes –, La La Land me pareceu ser sobre o Sebastian, muito mais do que sobre a Mia. Claro que isso não é problema nenhum, mas pra mim o filme perdeu muito nesse sentido e eu me peguei, diversas vezes, querendo mais da Mia em cena – e não por demérito da Stone, mas pelo roteiro em si.

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Acontece que a gente não sabe muito sobre esses personagens e isso me incomoda; o pouco que se sabe é jogado aqui e ali e eu, honestamente, não senti motivação pra torcer pelo casal. A gente sabe que o jazz é muito importante pro Sebastian e que ele tem de fazer uns bicos por aí pra pagar as contas – aliás, uma das melhoras cenas do filme é durante um desses bicos, quando o Sebastian tá tocando numa festa com um grupo que faz covers de músicas dos anos 1980 e a Mia aparece e debocha dele pra valer! A gente também sabe que a Mia quer ser atriz e que é fascinada pelos musicais de época e que esse interesse surgiu por causa da tia dela, que a apresentou aos filmes clássicos. O resto, fica pra gente adivinhar.

O fato é que esse casal, tão central pro filme e pro enredo em si, não nos oferece muito: não tem nenhuma conversa profunda, nenhuma confissão de travesseiro. As cenas em que a gente deve entender que eles estão cada vez mais apaixonados são montagens sem diálogo, apenas música e alguns segundos dos dois andando pelas ruas da cidade. Chega a ser frustrante porque eu queria mais, queria ser convidada a partilhar da felicidade dos dois. Claro, as montagens indicam o passar o tempo, mas um pouco de substância nunca fez mal pra ninguém.

Lá pelas tantas, a Mia resolve abrir mão das audições frustrantes e decide escrever um monólogo pra ela mesma encenar num teatrinho local. São vários os personagens que dizem que o texto dela é maravilhoso, que é genial, mas em nenhum momento a gente vê/lê/ouve essas palavras – e aqui, pra mim, mora a grande falha do filme: o silenciamento da Mia, seja por parte da direção, do roteiro, ou da edição (ou de todos juntos). No momento da estreia da peça, o dia mais importante da vida dela, a cena é cortada e a gente não ouve uma palavra sequer do monólogo que vai dar a grande virada da carreira dela, já que uma agente assistiu à peça e chama a Mia pra um teste.

Esse e outros detalhes foram tirando o brilho do filme pra mim: a superficialidade da discussão sobre o jazz (e alguns críticos apontam que faltam personagens negros num filme sobre jazz) e sobre o mercado da música, as coreografias ensaiadas ad infinitum, as músicas que não causam grande impacto – com exceção da música tema, City of stars, que é cantada uma vez e depois repetida como trilha instrumental em vários momentos. Não me incomoda o fato de a cantoria ser reduzida, até porque o objetivo do filme é trazer pessoas comuns se apaixonando, mas alguns momentos eu pensei que a Stone não soubesse cantar, até que ela tem um ‘momento revelação’ em que canta muito bem.

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Aliás, a Stone tá ótima no papel, visto que o roteiro não ajuda muito no quesito ‘profundidade’. Uma das melhores cenas do filme é a cena do jantar dos namorados, sob uma luz verde neon, em que os atores brilham e a direção é certeira: o jantar começa bem, tudo muito amorzinho, mas de repente dá uma volta de 180° e as coisas vão ladeira abaixo de uma forma muito bem executada. Tem vários momentos em que o texto é engraçadinho, mas pra mim faltou alguma coisa pra ser um hit.

Eu juro que eu queria amar esse filme. Mas quem sou eu na fila do pão pra falar algo contra, né? Não me entendam mal, eu achei uma ótima produção: é plasticamente linda, soa bem, o elenco tá ensaiadinho. Mas tem um esvaziamento dos personagens e do conteúdo do filme, de forma geral, que causa um desconforto bem grande em mim. Acho, sim, que La La Land pode ter inaugurado uma nova vertente de musicais em Hollywood, mas é uma pena que a forma, nesse caso, esteja tão além do conteúdo.

la-la-land01La La Land: Cantando Estações

Gênero :    Comédia; Drama; Musical

Direção: Damien Chazelle

Roteiro:  Damien Chazelle

Duração:    128 minutes

Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Rosemarie DeWitt e outros.

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