Contando histórias: leitura coletiva

E hoje venho apresentar mais uma coluninha aqui no blog: Contando histórias nasce como um clube do livro, ou uma leitura em parceria, entre eu e quem mais quiser! Pra esse começo, convidei a querida Larissa (amiga letrista e minha personal consultant pra dicas de viagem) pra lermos um livro juntas e discutirmos nossa experiência e escolhemos o Homegoing, que bombou ano passado no mundo literário.

Publicado em 2016 e vencedor de uma série de prêmios internacionais de literatura, Homegoing é o romance de estreia da Yaa Gyasi – e deve ser publicado por aqui pela Rocco. Nele, a gente segue os descendentes de duas personagens que abrem o livro: Effia, uma jovem que é vendida pela família como esposa pra um escravista inglês e Esi, outra jovem que é capturada como escrava e levada pros calabouços do Castelo de Cape Coast, onde a Effia mora. As duas, que são meio-irmãs, nunca se encontram, mas seus filhos e os filhos dos seus filhos vão povoar a narrativa através dos séculos numa história sobre a sobrevivência, a resistência, a esperança e a dor.

homegoing_capa

Pra organizar nossa discussão, dividimos o assunto em alguns tópicos/questões que mais nos chamaram atenção. Vamos tentar evitar spoilers, mas nunca se sabe!

De que forma a estrutura do livro (no sentido da forma) contribui pra experiência da leitura?

Rafa: Um dos traços que mais chama a atenção na forma como o livro é organizado é a distribuição dos capítulos: cada um deles é dedicado a um personagem, sempre um capítulo pra linhagem da Effia e um pra linhagem da Esi. Assim, a gente avança no tempo sabendo o que acontece com cada lado na mesma época e nos deslocamos na História, passando pela escravidão, pela guerra da secessão, pelo fim da escravidão, pela segregação e chegamos na época atual (ou pelo menos até 1980).

Essa proposta é grandiosa porque exige, além de toda pesquisa necessária pra construir um pano de fundo convincente, uma edição meticulosa e focada no estritamente importante pra sequência e coerência da história. A Gyasi consegue deslizar muito bem entre os diferentes momentos históricos e, ainda que o livro não seja saturado de informações “técnicas” sobre o período em que cada personagem vive, a gente consegue ter uma visão bastante ampla do que estava acontecendo. Até porque, se tu não tava dormindo debaixo de uma pedra tua vida toda, tu sabe alguma coisa sobre a escravidão, sobre a história dos EUA e sobre as guerras entre as tribos africanas.

Dito isso, preciso confessar que me senti muito burra no começo do livro porque eu não sei nada sobre a história de Gana nem sobre as tribos/povos que formam a nação, muito menos sobre quem era inimigo de quem. Mas, com o desenrolar dos fatos, as coisas vão ficando mais claras e quando se falava do Axantes ou dos Fantes, eu já tava conseguindo separar as coisas.

Lari: Eu amo livros que fazem a gente acompanhar a história de uma família ao longo do tempo, eu acho que essa era a proposta da Yaa com Homegoing. A forma como ela encontrou para fazer isso foi dividir o livro em 14 capítulos de mais ou menos 30 páginas cada um contando a história dos descendentes da Effia e da Esi. Ela intercala cada capítulo com a família de uma delas. De alguma forma, essa estrutura fez com que eu tivesse uma família favorita, a da Effia. Eu sinto que eu li correndo os capítulos da família da Esi porque eu queria chegar mais rápido nos descendentes da Effia. Parece que a história da Effia foi escrita com mais detalhes e eu me relacionei mais com os personagens. Isso também pode ter a ver com eu não saber muito sobre a história de Gana então nos capítulos da família da Effia eu acabei aprendendo mais sobre isso e queria “mergulhar” mais nisso.

Falando em história, a primeira coisa que eu pensei quando comecei a ler o livro foi o quanto de pesquisa histórica a Yaa deve ter feito para conseguir usar a História de Gana e dos Estados Unidos como pano de fundo para a narrativa dela; para mim, esse entrelaçamento entre a história do país e a história dos personagens é um dos pontos fortes da narrativa.

Rafa: Engraçado, acho que justamente esse “afastamento” que senti em relação a Effia me fez gostar muito mais da história da Esi e da família dela! Acho que alguns personagens me chamam a atenção em Gana, mas me identifiquei muito mais com a história que se passa nos EUA.

O ato de nomear é muito significativo em Homegoing. O que tu acha que os diferentes nomes e apelidos dos personagens podem indicar? Podemos estabelecer uma conexão entre o poder da linguagem e nomeação?

Lari: Acho que o fato de o título dos capítulos ser o nome de um personagem indica como a Yaa queria que nós víssemos a história. Olhando só o título dos capítulos é possível ter uma ideia de como a história vai progredindo porque nós podemos ver os nomes mais ocidentais da família da Esi e mais ganenses da família da Effia. É bem interessante como no começo da história da família ganense parece que os personagens vão se “ocidentalizar” – afinal o segundo nome é James – mas eles retornam à raiz de nomes ganeses. Enquanto isso na família americana, em determinado momento, eles perdem essa identidade ganesa e, talvez como consequência dessa perda da raiz histórica da família, eles passam a adotar nomes ocidentais.

Os nomes também são importantes porque de certa forma eles põem rosto nessas pessoas que em outras narrativas são só “os escravos”. Dando nome a esses personagens a Yaa fez com que eu me relacionasse com eles e sofresse junto com as coisas que acontecem com eles.

Rafa: Também senti essa ocidentalização na questão dos nomes dos personagens, mas entendi que, nesse caso, não foi necessariamente uma escolha, mas uma imposição dos escravistas – não que eles se importassem com os nomes, mas me parece que havia uma necessidade de tentar encontrar um nome mais “cristão” pros escravos (ou pelo menos algo que os senhorios pudessem pronunciar sem muito esforço). Isso também sinaliza uma dominação sobre o outro, no sentido de que a vontade do homem branco se impõe e acaba esmagando as próprias raízes dos escravos. Essa objetificação dos negros contribui pra apagar toda e qualquer herança dos antepassados, seja ela feita de histórias e anedotas familiares, ou dialetos e tradições.

Um dos temas mais importantes de toda a narrativa é o papel da mulher. Como tu acha que esse papel está representado dentro das duas principais culturas retratadas no romance (americana e ganense)?

Lari: Com relação ao papel da mulher na história, a minha impressão é que as mulheres das famílias americanas e ganeses são tratadas de formas muito diferentes. Me parece que na família ganense as mulheres tinham mais liberdade, ou formas de manipular os homens para que a vontade delas se concretizasse. Essas mulheres tinham mais poder de decisão sobre a sua própria vida. Além disso, uma das frases que eu mais gostei no livro “really, she was king and queen and everything in between” [“de fato, ela era rei e rainha e tudo mais no meio”, trad. livre] é sobre uma das mulheres de Gana.

Em contraposição, as mulheres da família americana me parecem serem mais subjugadas. Além disso, doeu meu coraçãozinho quando uma das personagens encontra o ex-marido casado com uma mulher branca, com um filho branco enquanto ela está criando sozinha o filho dos dois e sofrendo com não poder ir a certos lugares porque ela é negra. Acho que talvez as descendentes da Esi nos Estados Unidos são as que mais sofrem pelo fato de serem mulheres.

Recentemente eu li uma entrevista com a Yaa em que ela diz que o povo Akan baseia sua genealogia nas mulheres e por isso ela escolheu começar a história falando de uma mãe e duas filhas. Isso talvez também tenha a ver com essa minha impressão de que as mulheres de Gana têm um pouco mais de liberdade.

Rafa: Não sei se tive essa mesma impressão sobre as mulheres de Gana… me parece que elas também são colocadas dentro de casamentos arranjados e as relações entre a primeira esposa e as demais nem sempre são boas. Além disso, existe a pressão casarem logo e casarem bem e, depois disso, a pressão para conceber herdeiros. Penso na própria situação da Effia, vendida pela madrasta como esposa pro governador branco: ela não é a esposa legal, nunca vai ser (tanto que as esposas ganesas são tratadas como “wenches”, uma palavra usada pra se referir à serva ou empregada ou, no uso mais comum, à prostituta), mas tem de cumprir as obrigações que caem sobre ela como esposa de um oficial inglês. Além disso, num outro capítulo, uma princesa Axante é roubada pra ser dada em casamento a um dos personagens principais, o que reforça em mim a impressão de que as mulheres, de qualquer lado do oceano, eram moedas de troca – vou usar como exemplo a Ness, que é uma escrava dada em casamento a outro escravo pra que ele parasse de “se comportar mal”, pra que ele “se acalmasse”. Talvez o modo como as mulheres são tratadas na América escravocrata seja mais visivelmente horroroso do que em Gana, mas as duas situações me parecem ruins.

A questão do pertencimento é bastante explorada no romance, tanto no caso dos personagens negros quanto nos mestiços, mas ela acaba tomando rumos diferentes pra cada um deles. Como o fato de pertencer ou não se relaciona com a ideia de nação e com o preconceito?

Lari: Esse tema do pertencimento se torna mais forte nos últimos capítulos, especialmente para família da Esi porque eles perdem a noção de quem são. Aqui no Rio Grande do Sul, nós gostamos de dizer “eu sou de origem de família italiana” ou “eu sou de origem de família alemã”, mas a maioria dos African-Americans não sabem de que país/região da África eles se originam e, portanto, não fazem ideia de que costumes e culturas seus antepassados tinham e isso no livro é bem forte, principalmente no capítulo do Marcus.

Com relação a esse sentimento de pertencimento, eu achei que o livro não ficou igual nas duas linhas genealógicas porque a família da Effia parece ter uma certa “redenção”, ou um retorno às origens nos últimos capítulos com a personagem da Abena e eu queria que isso acontecesse também na família da Esi. Essa é a única crítica ao livro que eu tenho. Eu queria que as duas famílias se unissem de novo, sejam com os personagens do século XX aprendendo sobre os seus antepassados ou encontrando algo que contasse a história deles.

Rafa: Também acho que a ideia do pertencimento toma rumos muito diferentes pras duas famílias. Em Gana, os personagens tentam retomar o contato “tribal” depois que a Effia teve um filho com um homem branco, o que se torna uma mancha na história dos descendentes, algo que eles lutam pra redimir — até porque a Effia casa com um escravista. Esse impasse do pertencimento fica muito claro no caso do filho dela, James, que vai pra Inglaterra estudar e é confrontado com o fato de que ele não é branco o bastante pra ser aceito em sociedade nem é negro o bastante pra ser recebido bem em Gana. Pra mim, ele é o caso que mais salta aos olhos porque, além da cor da pele ser impasse na sua vida, ele também se recusa a continuar o trabalho/herança do pai e dos tios com o tráfico de negros.

Já com a família que está nos EUA, o pertencimento e o preconceito se tornam pontos muito mais dolorosos por causa da escravidão: o negro não tem lugar na sociedade branca a não ser o lugar do objeto de troca e de exploração. Com o passar dos anos, a escravidão dá lugar à segregação racial e o dilema continua porque o negro não direito de dividir os espaços com o branco e nem é considerado cidadão a quem a lei possa ajudar. Enquanto em Gana a divisão está mais relacionada com as tribos e classes sociais, nos EUA a cor da pele é determinante pra estabelecer se alguém é ou não um membro da nação. 

Opinião final:

Homegoing oferece uma narrativa poderosa, bem construída e sensível. É um livro lindo. Meu único pé atrás com ele é que foi muito curto! Esperava um desenvolvimento maior de algumas situações, em especial dos capítulos finais, que me pareceram meio apressados numa tentativa de atar o final. Vale a leitura, sem dúvida, mas se tivesse o dobro de páginas, ia ser ainda melhor! Sei que a Lari adorou o romance (muito mais que eu) e se emocionou com algumas passagens também. Recomendamos a leitura, é uma obra linda!

***

Gostou da ideia de ler em parceria? Escreve pra mim e vamos encontrar um livro pra gente ler juntos!

Rafa

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