eu leio #14: leituras de julho

Mais um mês que se foi e, olha, por aqui foi recheado de leituras gostosas, delicinhas, de aquecer o coração e botar aquele sorriso na cara:

lady isabella1. Lady Isabella’s Scandalous Marriage (Mackenzies & MacBrides #2), da Jennifer Ashley (2010). Pode rir, eu não tenho vergonha mesmo. Depois de não ter ficado lá tão impressionada com o #1 da série, fui ler o segundo. HAHA. Achei no mesmo nível do primeiro, nada demais, mas bom pra passar o tempo, tipo novela: Lady Isabella é casada com o Mac Mackenzie, mas estão vivendo separados há anos. O livro é basicamente o cara tentando conquistar ela de volta e ela deixando. JURO que não em nada demais, mas li até o fim porque sou dessas que adora um livro safadeenho e porque gosto de leituras nonsense pra me distrair.

 

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2. Days without end, do Sebastian Barry (2016). Vi o Simon Savidge falar muito bem desse livro, que foi o ganhador do Costa Book Award de 2016 e deixa eu dizer que foi uma das melhores compras que eu já fiz. QUE LIVRO MARAVILHOSO! Tá, talvez nem todo mundo goste, mas eu amei demais. Segue a história do Thomas McNulty, um garoto irlandês que acaba nos Estados Unidos lá pela metade do século XIX e do melhor amigo, Joe Cole. Os dois são pobres e órfãos e precisam encontrar um jeito de ganhar a vida e acabam indo trabalhar num bar, onde se vestem de meninas e dançam com os caras que vão lá pra um traguinho. Mas isso é só o começo, porque os dois acabam se alistando na guerra, primeiro contra os índios, depois na Guerra Civil Americana, e vão escapando de situações inimagináveis, sempre juntos, construindo uma vida e alimentando sonhos. Pode não parecer (e nem acreditei no começo), mas essa é uma história lindíssima que, mesmo tratando dos horrores da guerra e do que ela causa no ser humano, consegue fazer isso com uma beleza e poesia únicas. O narrador é o próprio Thomas e ele tem um discurso muito peculiar — demorei pra engrenar nas primeiras páginas, mas depois que entendi que ele falava meio cowboy, com aquele sotaque sulista, entrei num ritmo bom (e o sotaque nunca mais me largou). O ritmo da narrativa é excelente e os altos e baixos dão um colorido particular pra história dos dois que, surpreendentemente, se mostram muito sensíveis e profundos, em especial sobre as pequenas coisas da vida, do amor e da morte. Esse é daqueles que recomendo com o ❤ na mão!

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3. The power, da Naomi Alderman (2016). Vencedor do Baileys Women’s Prize de 2017, The power foi umas das melhores coisas que li esse ano. O enredo segue a história de vários personagens, em diferentes cantos do mundo, mas todos ligados pelo fato extraordinário de que as mulheres descobriram que têm um poder que as torna quase invencíveis. O tal “poder” é uma espécie de evolução genética que, formando um tipo de conglomerado de nervos, cria energia capaz eletrocutar outra pessoa. Tudo não passa de uma metáfora pra problematizar uma hipótese interessantíssima: e se as mulheres assumissem o controle do mundo? Achei o livro ousado e inovador, a narrativa é muito atraente e difícil de largar; os personagens são bem distintos e complexos e gostei muito de ter o ponto de vista de cada um deles. Além disso, a tensão que a Alderman cria ao longo da história é muito palpável e aos poucos ela vai dando detalhes de como esse embrulho todo vai se desenrolando. Se tu curte a literatura da Atwood, vai se interessar por esse também!

snow glass apples4. Snow, Glass, Apples, do Neil Gaiman (1995). A história da Branca de Neve reescrita sob a perspectiva da madrasta? Vou estar querendo, hein. Na verdade, a história é um conto publicado em 1995 pelo Gaiman, mas relançado em 2008 como edição especial pra Comic Book Defense Fund (uma fundação internacional que defense o ensino de literatura através de histórias em quadrinhos e luta muito pela liberação de alguns volumes considerados proibidos em vários lugares do mundo, especialmente nos EUA). Nessa recontação, o Gaiman abusa da imaginação e explora o lado da madrasta, nem tão má quanto parece, e da verdadeira natureza da Branca de Neve. Continho assustador, viu? Acho que nunca tinha lido nada parecido do Gaiman: achei ousado, com requintes de crueldade, mas uma versão bacanérrima do conto de fadas — onde fadas não têm vez.

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5. The Essex Serpent, da Sarah Perry (2016). Cora Seaborne acaba de ficar viúva e o que poderia ser uma situação precária se transforma na possibilidade de liberdade e descobrimento. Ela viaja até a pacata Essex que, na década de 1890, acaba de enfrentar um terremoto que mexeu profundamente com os habitantes e suas vidas, inclusive dando origem a uma espécie de lenda urbana: uma serpente marinha é avistada nas águas do Blackwater e seria a responsável pela morte de alguns animais e ferimentos em algumas pessoas. Cora, uma amante da ciência e um espírito a frente do seu tempo, se vê atraída pela cidade e pelos moradores; ela faz amizade com o Reverendo William Ransome e sua família, um homem da fé que se vê diante do dilema que representa a possível existência da serpente. Os dois vão colidir de formas inesperadas, instigantes e desafiadoras. Eu gostei demais da narrativa — o ritmo, os embates e, além dos dois personagens centrais, os demais compõem um grupo muito diverso que completam e se opõem uns aos outros; o enredo é muito bem desenvolvido, amarradinho, e os diferentes pontos de vista dão uma vida única ao romance. Cora é uma grande heroína, complexa, intensa, que desafia o papel da mulher na sociedade e alguém para quem o amor pela ciência é a redenção.

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6. Nijigahara holograph, do Inio Asano (2006). Com certeza, o livro mais desafiador que li esse ano, Nijigahara é um mangá que retrata a história de vários personagens que acabam conectados por um evento da infância: colegas na escola, eles tomam parte (direta ou indiretamente) no assassinato de uma menina da turma. Dez anos depois, eles são confrontados pelo que fizeram através de uma série de eventos que vai mudar as suas vidas. Falando assim parece fácil, né? Mas ler esse mangá foi bem difícil pra mim: a história não é linear nem cronológica, misturando o passado, o presente, sonhos, imaginação e alucinações, o que dificulta o entendimento. O mérito é todo do autor, claro, que consegue criar uma história que faz sentido mesmo nessa bagunça toda — confesso que tive que buscar ajuda online pra desfazer o nó que ficou minha cabeça quando terminei, mas a experiência de leitura, por si só, já foi incrível. Sabe aqueles filmes que vão contando várias histórias, a princípio desconexas, que vão se encaixando aos poucos e culminam no grande final (como Crash ou Babel)? É exatamente isso, mas em forma de mangá. A arte é muito boa, no clássico preto e branco, mas em alguns momentos salta da página, é inacreditável. Fica o aviso: é bem violento, então consuma com moderação, mas consuma porque é assustadoramente bom. E releia. Vai precisar.

black moon7. The black moon (Poldark #5), do Winston Graham (1973). Já não é segredo que eu gosto muito da série de tv Poldark (que está encerrando a terceira temporada) e eu curto ler os livros pra comparar e talvez ir adiantando algum enredo. Fiquei pra trás, porque a terceira temporada tratou dos livros 5 e 6, mas ainda assim resolvi seguir lendo. Nesse volume da saga, Ross Poldark está vivendo um momento mais próspero com sua mina enquanto aguarda a chegada do terceiro filho; Demelza Poldark segue ótima como sempre, perdoando as loucuras do marido instável que ela tem; os Warleggan prosperam na política e na cena local e o livro abre com o parto do filho da Elizabeth e do George. Personagens novos surgem com os irmãos da Demelza que, depois da morte do pai, vão pra Nampara pedir uma ajudinha pro Ross pra fundarem uma casa de oração metodista, pra desgosto do nosso herói. Além disso, a Elizabeth chama a prima, Morwenna, pra ser tutora do Geoffrey Charles, mas as coisas se complicam quando a mocinha e o Drake (irmão mais novo da Demelza), engatam um romance proibido. O pano de fundo é a revolução na França e a economia local que deixa muitos em situação de miséria. Óbvio que o Ross vai ser o Capitão que a gente ama e vai salvar o amigo preso de guerra na França, vai alimentar os pobres e vai dar emprego pros necessitados. O texto continua muito bom, com personagens bacanas aparecendo e explorando, cada vez mais, a situação das camadas mais pobres da sociedade e expondo a podridão dos poderosos — mas também tem cenas importantes pra problematizar a condição das mulheres e das obrigações sociais que delimitam a liberdade, as escolhas e a até mesmo a felicidade delas.

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8. Spoonbenders, do Daryl Gregory (2017). Uma família com habilidades psíquicas um dia já conheceu a fama, mas, em 1995, os Telemachus ainda vivem os efeitos da última apresentação que fez com que eles perdessem a credibilidade em rede nacional. Teddy Telemachus tinha grandes habilidades com truques e adivinhações, mas um acidente fez com as mãos dele não fossem mais tão ágeis; cada um dos seus filhos têm um talento diferente — Irene é um detector de mentiras humano, Frankie pode mover pequenos objetos com a força da mente e Buddy prevê o futuro — e o sonho do Teddy era ficar famoso e rico com o trabalho da família. Mas as coisas se complicam quando a esposa, Moreen, é chamada pra trabalhar pro governo americano na Guerra Fria — Moreen, a maior e melhor vidente de todos os tempos. Anos mais tarde, os Telemachus se vêem diante de ameaças da CIA, da máfia e dos céticos de plantão e cabe ao neto, Matty, ajudar a família nesse momento, já que ele acaba de descobrir que também tem um poder paranormal. Eu ADOREI a história (em nenhum momento me aborreci, achei tudo muito acertado e necessário pro enredo, além de ter várias dicas ao longo da narrativa pra gente ir colecionando e desvendando os mistérios), os personagens são divertidíssimos (o Teddy é um baita cretino, os filhos bem diferentes entre si e os netos super piradinhos) e tem cenas muito lindas entre eles. Claro que é fantasioso, mas não deixa de ser uma história sobre uma família que, mesmo não-convencional, precisa enfrentar os mesmos problemas que todo mundo e pra quem ter poderes não facilita as coisas, pelo contrário. Uma jornada de descobertas, tanto de segredos e verdades, como descobertas pessoais; uma jornada sobre a (auto)confiança, a amizade e os laços que nos unem.

 

***

Essas foram as leituras do mês. E tu, que leu de bom? Deixa um comentário, me contando tudo (;

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